
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Imagens do futebol
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
No buraco errado [música]
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Dos Amores Mais Vendidos - Diedrich e os Marlenes
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Saramago fala sobre religião
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Dalton Trevisan

Atrás da cortina, vigiando a rua, o contista se repete:
pobre Maria, pobre João que, em toda casa de Curitiba, se crucificam aos beijos na mesma cruz.
Mal a pobre se queixa:
- Ai, que vida infeliz.
Ele a cobre de soco e pontapé:
- E agora? Está se divertindo?
Apanha ela (grávida de três meses) e apanham as cinco pestinhas. Uma das menores fica de joelho e mão posta:
- Sai sangue, pai. Não como facão, paizinho. Com o facão, dói.
***
Reinando com o ventilador, a menina tem a falange do mindinho amputado.
Desde então as três bonecas de castigo, o mesmo dedinho cortado a tesoura.
***

Rataplã é o gato siamês. Olho todo azul. Magro de tão libidinoso. Pior que um piá de mão no bolso. Vive no colo, se esfrega e ronrona.
- Você não acredita. Se eu ralho, sai lágrima azul daquele olho.
Hora de sua volta do colégio, ele trepa na cadeira e salta na janela. Ali à espera, batendo o rabinho na vidraça.
Doente incurável. O veterinário propõe sacrificá-lo. A moça deita-o no colo. Ela mesma enfia a agulha na patinha. E ficam se olhando até o último suspiro nos seus braços. Nem quando o pai se foi ela sentiu tanto.
***
- Na cama o João vem pra cima de mim.
Uma transa lá entre ele e a minha perna. Não estou nem aí.
***
Tristeza é ver florindo o vasinho de violeta no quarto da filha morta.
***
Qual epopéia de altíssimo poeta se compara ao único versinho da primeira namorada:
- Que duuuro, João!
***
Qual o motivo, me diga, para matá-lo? Me presenteou uma camisola nova e samambaia. Ele me dava tudo, era cigarro era calcinha de renda. Depois fez o que mais gostava: as unhas do meu pé. Foi a noite da despedida.
Um amorzinho bem gostoso. O despertador marcando as cinco. O revólver ali em cima da mesinha. Dormi e sonhei com um rio de água negra me levando.
Ele acende a luz, antes do relógio tocar. Pergunta se o trato ainda vale. Respondo que sim. Se um não pode ser do outro, o jeito é pôr um fim em tudo.
Aponta no ouvido esquerdo, sorri para mim, aperta o gatilho. É a minha vez. O relógio dispara, um sinal de Deus. Vejo aquela sangueira, penso nos dois filhinhos. Não, a vida é boa.
***
Domingo, de volta do futebol, ele serve-se de uma cachacinha, liga o rádio.
- sabe, paizinho?
É o menino de seis anos, todo prosa.
- O que, meu filho?
- Essa a música que a mãe dança com o tio Lilo.
***
Durante quarenta anos, a cada sua tentativa dissimulada.
- Seja ridículo, velho – era a mulher contenciosa e iracunda. – Bigode? Não tem o que fazer?
Até que ela morreu. Contrariada de ir primeiro. Dias depois, os amigos dele já reparavam no bigodão
***
Dias das mães: quantos crimes literários, ai, mãe, são cometidos em teu nome!
***
O menino para a mãe:
- A vovó buliu no meu pintinho. Ela diz para não contar.
Essa não, meu Deus, pensa a nora, iluminada. Afinal eu entendi. Agora sei de tudo. O grande segredo do filho dela. Porque ele é assim... tão...
***
O primeiro marido tem dinheiro de sobra. E ela, uma vida regalada. Até o cara ser preso como traficante. O segundo marido ganha bem, mas judia dela. Arrasta pelo cabelo, morde, tira sangue. O terceiro, sargento reformado, é manso e quieto. Só que bebe até cair. Internando-o na clínica, ela recebe uma pensão.
Logo se amiga com o tipo mais novo. Não se droga, não fuma, não bate, não bebe. Mas também não trabalha. Daí ela visita o marido no asilo: “Deus te mandou, minha santa. Você veio me buscar”. Com dó, leva-o para casa e vivem os três da mesma pensão. O amante não está feliz, tem de dar banho e fazer a barba do sargento.
***
Ao chegar em casa, do programa no motel, o marido é saudado com um grito pela mulher:
- eu soube de uma coisa terrível!
Pronto, ele pensa, estou perdido. Ela descobriu tudo.
- Pô, o quê... Mas o quê... O que aconteceu?
- Mataram o filho do seu João!
- Urr... Orra. É mesmo? Pobre do seu João.
Te devo essa, Deus.
***
Na farmácia, a mocinha com o bebê no colo, apagando a voz:
- Uma caixa de pílula e um batom bem vermelho.
***
Dois inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um consegue espiar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, para o outro é a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, pergunta o que acontece. Deslumbrado, anuncia o primeiro:
- Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
- Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
- Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remorde-se no seu canto. O mais velho acaba morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dorme, antegozando a manhã. O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo o circo mágico do cachorro, da menina, do enterro rico.
Cochila um instante – é dia. Senta-se na cama, com dores espicha o pescoço: no beco, muros em ruína, um monte de lixo.
***
O velho em agonia, no último gemido para a filha:
- Lá no caixão...
- Sim, paizinho...
- ...não deixe essa aí me beijar.
***
O jantar para os dois casais amigos. Na parede uma das mulheres nuas de Modigliani.
Tanta festa, muito riso: o lombinho uma delícia. Até que um dos maridos:
– Essa moça do quadro. Ela sorri para você?
– É o meu consolo das horas mortas.
A dona acode, oferecida:
– Ela sou eu, não é, bem?
Um murro na mesa estremece prato e espalha talher:
– Ela é você? Quando você teve esse amor desesperado nos olhos? Esse perdão infinito na boca?
Outro soco espirra vinho tinto na toalha:
– Não se conhece, sua bruxa?